junho 24, 2017
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“És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...”
Assim o compositor e intérprete Caetano Veloso inicia sua inspirada e melódica Oração ao tempo. E o tempo tem sido objeto de reflexão para muitos filósofos, linguistas, profissionais de RH, entre outros.
Émile Benveniste, filósofo da linguagem, considera que, de todas as formas linguísticas reveladoras da experiência subjetiva, nenhuma é tão rica quanto aquelas que exprimem o tempo. Em suas reflexões, ele distingue três categorias de tempo: o tempo físico, linear, segmentável, infinitamente variável e medido por cada indivíduo conforme o grau de suas emoções e o ritmo de sua vida interior; o tempo crônico, que engloba nossa própria vida, enquanto sequência de acontecimentos; e o tempo linguístico, configurado como o tempo subjetivo, o presente da instância da fala, sendo que a única forma para viver o ‘agora’ é sua concretização por meio da inserção do discurso no mundo.
Maurice Merleau-Ponty, em sua Fenomenologia da Percepção, também compreende o tempo em sua íntima relação com a subjetividade. Vivenciamos e refletimos sobre nossas próprias experiências, delimitando-as segundo o antes e o depois, em conformidade com uma necessidade interior. A subjetividade deve ser compreendida como um “campo de presença” ou ainda como “uma rede de intencionalidades”. No presente, o corpo subjetivo se torna uno com sua consciência. Há, portanto, uma simbiose entre o sujeito e o tempo, expressa em um só impulso, o que nos leva a compreender o tempo como sujeito e o sujeito como tempo.
Sujeito e senhor absoluto de nossas vidas, o tempo soa imperativo no Poema da necessidade, do poeta Carlos Drummond de Andrade:
“É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.”
Aí eu me pergunto: cadê tempo pra tudo isso e mais! E, em uma correria infernal, o aluno reclama que tem o livro de literatura pra ler, tem uma lista enorme de exercícios de física e de matemática, tem trabalho interdisciplinar de geografia, química, redação e sei o que lá mais, tem de estudar pra prova, nem vida social tem mais... Tudo culpa dos professores, esses monstros, que, por sua vez, têm de planejar as aulas, têm de corrigir avaliação, têm de entregar diário em dia, têm de participar de congresso, publicar artigo, preparar os alunos para a Olimpíada, colocar matéria no blog, nem tempo pra família tem mais... Tudo culpa do... “Fora, temer!”, comentário previsível, porém necessário.
Os profissionais de RH, metódicos e disciplinadores, nos apontam miraculosas soluções para driblar o tempo, ou melhor, a falta dele: defina suas prioridades de acordo com as quatro necessidades básicas: físicas, sociais, mentais e espirituais; comprometa-se com a sua meta; resolva um problema de cada vez; evite acessar as redes sociais na hora do trabalho; estabeleça regras claras; programe os seus dispositivos móveis com aplicativos que o auxiliem na tomada de decisões. E depois de tudo isso, ao finalizar uma tarefa urgente e importante, caso tenha um tempinho de sobra, você pode aproveitá-lo para: adiantar uma atividade futura; descansar, relaxando a mente e o corpo; praticar esporte ou outra atividade de lazer; investir em um curso de idioma, ir à igreja ou ainda engajar-se em um trabalho social. Meu Pai, e eu nem sabia que era tão simples assim...
Um dia desses, eu estava lendo uma mensagem postada por uma ex-aluna do Cefet-MG no Facebook, que transcrevo aqui literalmente: “A pergunta que meus amigos e conhecidos de Viçosa sempre fazem é ‘"Como vc consegue Rafa?’, ‘Como vc consegue ser diretora da PraxCis, seis matérias, fazer cinco projetos, estatística, todas as modalidades da Atlética, tentar entrar no grupo de dança e agora fazer parte da diretoria do corujão?’ Então eu respondo aqui, consigo pq eu corro atrás, porque eu amo meu curso e sei que tudo me deixa feliz e vai acrescentar ao meu futuro!”
É ... gostei dessa reflexão em forma de resposta! Tudo bem que os profissionais de RH também têm suas razões, mas eu prefiro acreditar que o amor próprio e o autoconhecimento são a origem para a solução de todos os problemas. Cultivando o amor próprio, conseguimos enxergar melhor o lado bom da vida, mesmo quando tudo parece estar de pernas para o ar. O amor próprio não é, senão, o cuidado, o respeito, a consideração e a autocompaixão. Além disso, o amor próprio nos possibilita também amar ao outro.
Atropelados pelo automatismo do dia a dia, muitas vezes até cumprimos os prazos, mas não enxergamos nossas necessidades e sequer temos pouco tempo para olhar para nós e para os outros. Precisamos fortalecer a nossa autoconfiança, conectando-nos com o que temos de positivo, com o que gostamos de fazer e com o que nos faz bem. O amor-próprio está relacionado com a fé e com o pensamento positivo de que tudo vai dar certo. Isso não significa que os problemas vão desaparecer e que a luta vai terminar, mas é um exercício espiritual que nos possibilita perceber o que há de bom ao redor e dentro da gente.
Recorro, por fim, à sábia e melodiosa canção Resposta ao Tempo, composta por Aldir Blanc e Cristovão Bastos, e brilhantemente interpretada por Nana Caymmi:
“Respondo que ele aprisiona, eu liberto
Que ele adormece as paixões, eu desperto
E o tempo se rói com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor pra tentar reviver”
É... deu um nó na garganta agora. Essa música põe a gente assim meio... tão... ah, deixa pra lá...

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